Os prejuízos já contabilizados são de 80 milhões. Os agricultores aguardam o cumprimento de promessas, tal como os comerciantes. A CCDR Alentejo espera que o Governo transfira verbas. São os próprios lesados e, sobretudo, a câmara municipal quem tem avançado com todo o dinheiro.
Quase um mês e meio após as intempéries que destruíram explorações agrícolas, atividades comerciais e serviços no concelho de Alcácer do Sal, os lesados continuam sem ver um cêntimo do Estado. A Comissão Coordenadora de Desenvolvimento Regional (CCDR) do Alentejo, ao contrário de outras no país, ainda não recebeu qualquer verba do Governo. Naquele concelho do Litoral Alentejano estão contabilizados 80 milhões de euros de prejuízos. Há dezenas de comerciantes sem trabalhar e os agricultores socorrem-se de verbas próprias para fazer reparações.
“Se é por sermos poucos, então deixem-nos morrer à fome”. As palavras ditas ao Semmais são da presidente da câmara de Alcácer do Sal, Clarisse Campos, que se manifesta indignada por o seu concelho, o único no Alentejo onde foi declarado o Estado de Calamidade, ainda não ter recebido qualquer apoio financeiro prometido.
“É impensável o modo como o Governo tem tratado o Alentejo Litoral. É um absurdo pensarmos que possa ser devido a questões de cor política (o município alcacerense é PS ao passo que o Governo é PSD), mas a verdade é que até agora a CCDR do Alentejo, ao contrário do Centro e de Lisboa e Vale do Tejo, ainda não recebeu qualquer verba. Será que é por nesta região sermos poucos? Recuso-me a acreditar nisso”, disse.
Ainda segundo a autarca, os serviços camarários têm vindo a efetuar todas as diligências e vistorias legais que competem aos serviços municipais relativas às candidaturas de comparticipações financeiras apresentadas. “Temos feito o nosso trabalho, para que quando o dinheiro chegar à CCDR a sua distribuição se possa efetuar o mais rápido possível”, explica.
Clarisse Campos salientou as muitas dificuldades que afligem a população local e adianta que os prejuízos no seu concelho são na ordem dos 80 milhões de euros: “Quase tudo o que tem sido feito é com o dinheiro do município. São combustíveis, desgaste do material, horas extraordinárias. Algumas pessoas, poucas, receberam, com muita dificuldade, algum dinheiro das seguradoras, mas até estas, pelo que nos estamos a aperceber, estarão com pouca vontade de continuar a efetuar pagamentos. Temos danos na ordem dos dez milhões de euros que afetam particulares, sobretudo negócios de pequena dimensão que acabam por ser o sustento familiar e que não sabemos quando serão pagos. Só para o comércio há candidaturas no valor de sete milhões. Há muita gente em layoff e os apoios, até agora, são zero”.
Agricultores do concelho estão “secos”
Também os agricultores da região terão sofrido prejuízos que, no mínimo, atingem os 20 milhões de euros. Também eles, até ao momento e mesmo depois de anúncios do Governo, continuam à espera das comparticipações anunciadas.
“As pessoas fizeram a pré-inscrição na plataforma da CCDR, mas até agora não existiu qualquer apoio. Aquilo (o questionário na plataforma) parecia mais uma coisa para informação e estatística”, adiantou ao nosso jornal o diretor adjunto da Associação de Regantes de Campilhas e Alto Sado, Ilídio Martins.
De acordo com aquele responsável, os maiores prejuízos registados não dizem respeito às culturas, porque estas são poucas nesta altura do ano, mas sim reportam-se sobretudo à destruição de bens. “Houve muitos muros danificados, assim como equipamentos. As culturas de regadio não sofreram, porque não é tempo delas. Havia apenas algum trigo e pouco mais. Isso não quer dizer que no futuro não sejam seriamente afetadas, uma vez que quase todo o sistema de distribuição de água para rega acabou por ser muito afetado”.
Ilídio Martins diz que os canais de distribuição estão neste momento a ser reparados com verbas próprias dos agricultores. “É a única possibilidade de podermos regar quando chegar o momento. Não tínhamos orçamento para este tipo de danos. Mais tarde veremos como haveremos de pagar. Até agora só temos ouvido falar de apoios nas notícias, porque até nós não chegou nada nem ninguém”.
O nosso jornal contactou também o novo presidente da CCDR Alentejo, Ricardo Pinheiro, empossado há uma semana, que numa breve declaração não confirmou a entrega de qualquer verba às populações afetadas, embora tenha referido que as candidaturas estão a ser analisadas e que é aguardado envio de verbas por parte do Governo.






