Espetáculo escrito e dirigido por Isabel Costa, retrata a atividade de uma rádio clandestina e vai acompanhando os principais acontecimentos vividos no país desde a ditadura até ao 25 de abril de 1974.
Dar a conhecer o papel das rádios clandestinas como instrumentos de resistência à ditadura do Estado Novo é a premissa do espetáculo da estrutura Os Possessos, que estará em cena no Fórum Cultural José Manuel Figueiredo, na Baixa da Banheira, concelho da Moita, este sábado.
“Este espetáculo surge por ocasião dos 50 anos do 25 de Abril e pretende homenagear as rádios clandestinas que existiram durante o Estado Novo. Apesar de os equipamentos não serem muito acessíveis, havia ainda assim muitas rádios que procuravam romper com essa realidade cinzenta. Existia, por exemplo, a Rádio Portugal Livre, do Partido Comunista Português, a Rádio Voz da Liberdade, associada a Manuel Alegre, e outras que não tinham necessariamente pretensões políticas, assumindo uma natureza mais informal”, explica a encenadora Isabel Costa ao Semmais.
“Contamos a história desta rádio e as três radialistas envolvem o público nesta viagem. Logo no início, recebem o espetador e pedem-lhe para não fazer barulho nem se levantar, de forma a não levantar suspeitas, porque qualquer passo em falso poderia resultar em denúncia ou prisão. Depois de instalados, iniciamos a emissão. A passagem do tempo é também marcada pela música, que nos ajuda a contextualizar os diferentes momentos históricos”, revela.
Entre os episódios retratados no espetáculo, como o problema de saúde que afastou Salazar do poder ou a apreensão de rádios em Beja, destaca-se também a criatividade utilizada para contornar a censura. “Quando David Mourão-Ferreira escreve o Fado de Peniche, também conhecido como Fado do Abandono, a PIDE pede-lhe que justifique o significado da letra. De forma muito sagaz, ele explica que a canção se inspira na literatura medieval e conta a história de um homem que ama uma mulher distante, vivendo junto ao mar. Assim, a música acaba por não ser censurada”, sublinha a dramaturga.
Para Isabel Costa, o espetáculo permite mostrar ao público “o quanto a resistência portuguesa era organizada” e de que forma estas rádios “conseguiam fazer chegar a informação às pessoas”.



