A política como serviço…ou como carreira de conveniência?

Há muito tempo que olho para a política em Portugal com um misto de desilusão e desconfiança. Aquilo que deveria ser, na sua essência, um serviço nobre à comunidade, transformou-se, para muitos, numa carreira onde o interesse pessoal parece sobrepor-se ao interesse coletivo. E não vale a pena dourar a pílula, para uma parte significativa dos políticos que temos visto ao longo dos anos, a política deixou de ser missão e passou a ser oportunidade.

O que mais inquieta não é apenas o que se faz, mas a forma como se faz e, sobretudo, a mensagem que se passa para quem está de fora. A ideia de que se entra na política para servir o país está cada vez mais distante da perceção real das pessoas. Hoje, muitos cidadãos olham para os cargos públicos como atalhos para posições de conforto, influência e, em alguns casos, de privilégio difícil de justificar.

Veio-me este pensamento, uma vez mais, a propósito de um caso recente que envolve Mário Centeno. Enquanto ministro das Finanças, foi, durante algum tempo, visto como um político tecnicamente competente e com uma imagem de credibilidade. No entanto, a forma como geriu o orçamento através das chamadas “cativações”, um mecanismo que, na prática, consistia em anunciar verbas que depois não eram totalmente disponibilizadas, acabou por criar uma sensação de ilusão junto das instituições e dos cidadãos. Dizia-se uma coisa, fazia-se outra. E isso, mais cedo ou mais tarde, cobra o seu preço na confiança pública.

Ainda assim, apesar dessas reservas, conseguiu manter durante algum tempo uma aura de competência e equilíbrio. Mas a política, como a vida, é feita de continuidade, e a imagem constrói-se, ou destrói-se, ao longo do tempo. Depois de sair do Governo e assumir funções no Banco de Portugal, a perceção pública sobre a sua figura tem vindo, aos olhos de muitos, a degradar-se. Tentativas falhadas de projeção internacional e episódios menos bem explicados foram contribuindo para essa erosão.

E chegamos ao ponto que mais indignação gera, a questão da sua reforma aos 59 anos. Não está aqui em causa a legalidade, essa não discuto, mas sim a legitimidade moral e o impacto que este tipo de situações tem na confiança dos cidadãos. Para o cidadão comum, que trabalha uma vida inteira, que conta os anos até aos 66 anos e 7 meses para ter acesso à reforma, muitas vezes com sacrifícios e incertezas, este tipo de realidade é, no mínimo, difícil de aceitar.

Em Portugal, uma carreira contributiva completa, com salários médios, resulta frequentemente numa taxa de substituição que ronda os 70% do rendimento. Ou seja, mesmo depois de décadas de trabalho, a maioria das pessoas vê o seu rendimento diminuir na reforma. E depois surgem casos como este, perfeitamente enquadrados na lei, mas completamente desenquadrados da realidade da maioria. E é aqui que reside o problema, não é apenas o que é legal, é o que é justo e o que é percebido como justo.

Porque quando as instituições parecem funcionar de forma diferente para quem está dentro do sistema, cria-se uma fratura perigosa entre o país real e o país político. E essa fratura não se resolve com discursos nem com justificações técnicas, resolve-se com exemplo, com transparência e com sentido de responsabilidade.

A verdade é simples, cada episódio destes é mais uma machadada na já fragilizada credibilidade das instituições públicas. E quando a confiança desaparece, não há reformas económicas nem medidas avulsas que consigam compensar essa perda.

A política precisa urgentemente de regressar às suas origens, servir, e não servir-se. Porque um país onde os cidadãos deixam de acreditar em quem os governa é um país que perde rumo. E quando isso acontece, todos perdemos, sem exceção.

Carlos Cardoso – gestor