Devolver a habitação à função sociale ganhar a luta pelo novo Hospital

Num dos concelhos mais populosos da península, a CDU mantém-se no poder há 50 anos. Nesta entrevista, o presidente Paulo Silva explica porquê e elabora as prioridades do mandato, que continuam a ser transportes, saúde, habitação e os problemas ambientais ligados ao aterro da Amarsul.

O Seixal continua a ser um bastião da CDU. Como explica esta longevidade?

Olhe, acho que resulta sobretudo do reconhecimento da população pelo trabalho feito ao longo dos anos. As pessoas valorizam muito a qualidade de vida que existe no concelho, o espaço público, os equipamentos municipais, o apoio ao movimento associativo, os projetos escolares, as políticas ambientais… Tudo isso conta. Mas há outra questão fundamental: a proximidade. Nós estamos constantemente na rua, a ouvir as pessoas. Projetos como o Seixal Mais Perto ou o Fórum Seixal permitem que os munícipes participem diretamente nas soluções para o concelho. E as pessoas sentem que a opinião delas conta mesmo. Isso faz parte da identidade da CDU.

Quais são hoje as principais carências do concelho?

Sem dúvida a habitação. É um problema gravíssimo, não apenas no Seixal, mas em todo o país e até na Europa. A especulação imobiliária fez disparar os preços para níveis incomportáveis para muitas famílias. Temos de devolver à habitação a sua função social. Não podemos olhar para uma casa apenas como um ativo financeiro. É preciso reforçar o parque público habitacional para apoiar quem não consegue aceder ao mercado, seja para arrendar, seja para comprar. Apesar de essa ser uma responsabilidade do poder central, a Câmara tem avançado com candidaturas e projetos para aumentar a oferta de habitação pública, sobretudo para jovens e trabalhadores.

A saúde também continua a ser um problema?

Continua, e muito sério. O Hospital Garcia de Orta foi pensado para cerca de 200 mil pessoas e hoje Almada e Seixal têm praticamente o dobro dessa população. Os profissionais fazem um esforço enorme, mas o hospital já não consegue responder às necessidades. Por isso é urgente construir o Hospital do Seixal. Entretanto, temos em curso novas unidades de saúde em Aldeia de Paio Pires e Foros de Amora, através do PRR, e vai avançar a ampliação do Centro de Saúde de Fernão Ferro. Defendemos ainda a requalificação do Centro de Saúde de Pinhal de Frades.

Em que ponto está o processo do Hospital do Seixal?

Infelizmente, arrasta-se há mais de duas décadas entre anúncios, estudos e promessas que nunca passaram ao terreno. Tem havido sucessivos adiamentos e isso prejudica gravemente a população. Mas nós não vamos desistir. O povo do Seixal é resiliente, é moldado no aço da Siderurgia. Lutámos mais de 40 anos pelo Centro de Saúde de Paio Pires e conseguimos. O centro está hoje em construção. E também vamos ganhar a luta pelo Hospital do Seixal.

E os transportes?

Também aí há muito por fazer. É urgente aumentar o material circulante da Fertagus e avançar com a expansão do Metro Sul do Tejo. Repare: bastam 1,8 quilómetros de linha para o metro chegar a Foros de Amora e servir mais 50 mil pessoas. É uma obra pequena, sem custos elevados. Não se percebe porque continua parada.

As reclamações sobre a Fertagus continuam a multiplicar-se. O que lhe tem sido transmitido?

Tenho acompanhado esta luta muito de perto. Basta andar nos comboios nas horas de ponta para perceber o drama diário das pessoas. Viajam em condições quase desumanas, completamente sobrelotadas, como sardinhas em lata. Além disso, há atrasos constantes e supressões de carreiras. Já reuni com a administração da Fertagus e foi-me dito que estão previstas duas novas carruagens, cada uma para 380 passageiros, mas só chegarão em 2027. Também haverá mais aquisições, embora os processos sejam demorados. Recentemente falei ainda com o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, que prometeu mais material circulante até 2028. E no próximo dia 22 de junho vou reunir com a secretária de Estado da Mobilidade para discutir não só a Fertagus, mas também a expansão do Metro Sul do Tejo.

E quanto ao transporte fluvial?

Aí houve algumas melhorias. Temos estado em contacto com a Transtejo e já se conseguiu reduzir bastante os atrasos e supressões. Em junho arranca também a ligação fl uvial entre Seixal e Barreiro. Agora queremos mais horários e defendemos a criação da ligação Seixal– Parque das Nações. Essa pode ser uma excelente alternativa ao comboio e ajudar a aliviar a pressão sobre o transporte ferroviário e rodoviário.

A questão do aterro da Amarsul continua polémica. Qual é a posição da câmara?

A nossa posição é clara: o aterro do Seixal deve encerrar imediatamente. Já esgotou a capacidade e continuar a funcionar só agrava os problemas ambientais e de saúde pública para quem vive ali perto. Desde a privatização da Amarsul, o serviço piorou muito e os custos dispararam. Antes pagavam-se 22 euros por tonelada de resíduos; agora pagam-se 77 euros e, apesar disso, os resultados da empresa são defi citários. O problema agravou-se porque a célula destinada a inertes passou a receber resíduos indiferenciados e ainda foi criada uma quinta célula, com a qual a Câmara nunca concordou.

A autarquia avançou judicialmente?

Sim. Consideramos que todo este processo resultou de decisões da CCDR e da APA, por isso apresentámos uma providência cautelar no Tribunal Administrativo e Fiscal de Almada. Foi entregue em 2024 e continua sem decisão. E digo-lhe uma coisa: fui advogado durante 30 anos e nunca vi uma providência cautelar demorar tanto tempo.

As intempéries deste ano deixaram muitos estragos no concelho?

Bastantes. Houve danos em escolas, infraestruturas desportivas, culturais e rodoviárias por todo o concelho. Tivemos mesmo de ativar o Plano Municipal de Emergência. Os prejuízos rondam os 15 milhões de euros. Estamos à espera de apoio do Governo, mas a Câmara decidiu avançar imediatamente com verbas próprias para as reparações. Isso obrigou ao cancelamento de eventos como o Festival do Maio, o Seixal World Music e o Splash Seixal em 2026.

Também o Seixal Motard foi cancelado…

Foi, mas aí tenho de destacar o espírito solidário das associações motards, que aceitaram o cancelamento para ajudar na reconstrução das infraestruturas. Todos esses eventos regressarão em 2027.

“Os estrangeiros dão um contributo claro para a economia local”

A gerir um concelho com um elevado número de estrangeiros, Paulo Silva considera que a integração destes emigrantes tem sido positiva. “O Seixal sempre foi um concelho de acolhimento. Recebemos pessoas de todo o país e também muitos estrangeiros, que dão um contributo muito importante para a economia local e nacional”, sustenta. O autarca lembra que o município lançou em 2005 o Espaço Cidadania, um serviço dedicado à promoção da cidadania e do diálogo intercultural, especialmente vocacionado para apoiar migrantes. “O objetivo é facilitar a integração no acesso à escola, à saúde, ao trabalho e também na regularização documental”, explica. E acrescenta: “Além disso, existem várias associações de imigrantes que fazem um trabalho extraordinário e são parceiros fundamentais da Câmara nesta construção de um Seixal para todos”.