Tenho verificado, em caixas de comentários nas redes sociais, que há muita gente que gosta de sustentar as suas opiniões acerca do financiamento público para as artes numa citação de Javier Milei, qualquer coisa como: “se para viver da arte precisas de subsídios, então não és artista, és funcionário público”.
Bom, só para começar, é curioso como aparentemente ser funcionário público é, para estas pessoas, uma espécie de insulto. Trabalhar para o bem comum e não para o mercado aparentemente é, em si, um problema. Depois, importa constatar a forma entusiasta como se adere a uma frase dita pelo presidente de um país bastante diferente de Portugal, como se fosse mesmo a que faltava para caracterizar a nossa realidade.
Analisemo-la, então. Devíamos começar por procurar na História provas de que só foram ou são grandes artistas aqueles que vingaram no mercado. Porém, valerá mesmo a pena fazer essa pesquisa? Muita da arte que continua a ser estudada e faz parte da História está ligada ao mecenato e às cortes, ou seja, não teria sobrevivido no mercado — até porque noutras épocas esse conceito nada tinha que ver com o do presente (creio que será também escusado ir até às pinturas rupestres para demonstrar que a expressão artística é uma necessidade humana). Para ser mais directo e falar da actualidade, vamos ao motivo pelo qual existe fi nanciamento público para as artes: é para que haja o máximo de diversidade de oferta possível a baixo custo, em diferentes pontos do país; ou seja, destina-se em primeiro lugar ao público e não aos artistas. Sem fi nanciamento público, não existiriam companhias de teatro ou de dança a trabalhar um pouco por todo o território, não existiria cinema de autor, orquestras regionais, não existiriam teatros nacionais, galerias ou bibliotecas municipais, entre muitas outras entidades que se dedicam a criar, programar, fazer mediação cultural, etc. Porquê? Por motivos muito simples que se relacionam entre si: 1) Portugal é um país com muito baixos índices de consumo cultural; 2) a população portuguesa tem baixo poder de compra; 3) é um país pequeno, com um mercado interno quase inexistente (a circulação de espectáculos, mesmo os ditos “comerciais”, faz-se sobretudo em programações de espaços públicos, festas populares pagas pelo erário público, entre outros contextos quase sempre dependentes ou relacionados com dinheiros públicos).
Por detrás da frase de Milei e da sua repetição ad nauseam nas redes sociais, está uma ideia de sociedade em que o mérito só existe na relação com o mercado. Ou seja, só tem valor quem sabe vender aquilo que faz ao ponto de tornar a sua actividade rentável. A questão é que quando o objectivo é vender — e este é o ponto central mas aparentemente incompreensível para quem é fã da dita frase —, os critérios artísticos passam a ser secundários. Se um artista precisa do mercado para viver da sua arte, então talvez não seja artista mas sim vendedor — podia ser uma espécie de contraponto. A questão reside na natureza da actividade, não no facto de a mesma garantir ou não a sua rentabilidade. Não é que a maior parte dos artistas não tenha consciência do que precisaria de fazer para tentar que a sua arte fosse popular e mais vendável, a questão é que isso faria com que, enfi m, não fosse arte. É uma questão ética, na realidade, pois a criação artística pressupõe liberdade, a qual é contrária à lógica de utilização de formas pré-estabelecidas. O que devíamos prezar é exactamente a capacidade de os artistas terem a coragem e a perseverança de desenvolverem obras singulares através das quais possamos ter contacto com diferentes formas de interpretação do mundo, que é o exacto oposto da ideia absurda de uma arte genérica, neutra, pensada para agradar à maioria da população, portanto feita de forma condescendente por apontar para a mediania e não exigir o máximo. Exigir o máximo do público é respeitar a sua inteligência.
O mais preocupante na utilização da frase de Milei nem é, a meu ver, o facto de demonstrar total ignorância quanto à inexistência de um mercado em Portugal que possa garantir a criação artística — e a decorrente necessidade de se fi nanciar este sector de actividade. É o facto de revelar uma animosidade subjacente quanto aos artistas portugueses e o mais ofensivo desprezo em relação a um trabalho vasto do qual não faltam exemplos de extraordinária qualidade e relevância. Sim, refi ro-me ao trabalho que, ao longo das últimas décadas, foi feito nas áreas do teatro e da performance, da dança, da música, do cinema, das artes visuais ou cruzamentos disciplinares por existir fi nanciamento público. E não deixa de ser curioso constatar que muitas vezes quem repete frases como a de Milei é quem, igualmente, é capaz de gritar, a plenos pulmões ou em CAPS LOCK, que é patriota.
Levi Martins – diretor companhia Mascarenhas-Martins



