Campanha interna fica marcada por troca de acusações. Atual presidente fala em alegada quebra de compromisso para uma lista única; adversário reivindica autoria do programa político da distrital e acusa a direção de falta de ambição.
Os militantes do Chega vão escolher, no próximo dia 28, a liderança da Distrital de Setúbal, numa eleição que opõe Nuno Gabriel, atual presidente e cabeça de lista da candidatura “Valorizar Setúbal”, a Nuno Valente, que se apresenta sob o lema “Setúbal Merece Mais”.
Em declarações ao Semmais, os dois candidatos apresentam leituras distintas sobre o estado da estrutura distrital. Para Nuno Gabriel, também deputado e vereador sem pelouros na Câmara de Sesimbra, o momento exige estabilidade e continuidade. Já Nuno Valente, vereador sem pelouros no Montijo, considera que a distrital pode ser mais ambiciosa e defende uma nova liderança capaz de unir o partido em torno de novas ideias.
O atual presidente aponta os resultados eleitorais recentes como prova do trabalho desenvolvido pela sua equipa. Gabriel recorda que o Chega foi a força política mais votada no distrito nas últimas legislativas, quebrando a hegemonia socialista, e sublinha ainda o desempenho alcançado nas autárquicas, com a conquista de quatro juntas de freguesia. Embora admita que o partido não concretizou o objetivo de vencer câmaras municipais, refere que, em alguns casos, como em Sesimbra, “a vitória ficou a escassa distância”.
Nuno Valente rejeita essa interpretação e sustenta que o crescimento eleitoral do partido no distrito resultou sobretudo da notoriedade nacional do Chega e da liderança de André Ventura. “Atribuir esse desempenho ao trabalho da distrital é uma falácia e corresponde a uma tentativa de enganar os militantes”. O candidato admite que houve concelhos com resultados expressivos nas autárquicas, mas considera que o desempenho foi desigual e insuficiente para validar a estratégia seguida pela atual direção.
Saídas nas concelhias alientam contestação
A disputa pela liderança decorre num contexto marcado pela saída de vários coordenadores concelhios, entre os quais João Pereira, em Almada, Diamantino Laja, em Sesimbra, e Nuno Capucha, no Seixal.
Nuno Gabriel atribui essas saídas a divergências pessoais e acusa os antigos dirigentes de procurarem fragilizar a sua liderança. O dirigente admite ainda que alguns dos ex-responsáveis locais possam estar agora alinhados com a candidatura adversária.
Do lado de Nuno Valente, a leitura é oposta. O candidato entende que a saída de várias figuras locais é um sinal evidente de desgaste da atual direção. “Se saíram, algum motivo houve”, argumenta, defendendo que a distrital ficou enfraquecida e que o projeto liderado por Gabriel falhou na capacidade de manter mobilizadas algumas das suas principais estruturas concelhias.
A campanha sobe de tom quando a conversa chega à relação entre os dois candidatos. Nuno Gabriel diz ter sido apanhado de surpresa pela candidatura do adversário e revela ter procurado uma solução de consenso para evitar uma disputa interna.
Segundo o atual presidente, Nuno Valente foi convidado a integrar uma lista única, num entendimento que incluiria o apoio à sua candidatura à Câmara Municipal do Montijo. Gabriel garante ter cumprido a sua parte desse alegado compromisso, apoiando a escolha de Valente como candidato autárquico, e acusa agora o adversário de não ter correspondido ao acordo. Num dos momentos mais duros da campanha, questiona mesmo se esse é “o tipo de comportamento que os militantes querem ver na liderança da distrital”.
Confrontado com as acusações, Nuno Valente rejeita categoricamente a existência de qualquer compromisso desse género e acusa o adversário de faltar à verdade. “Uma mentira dita mil vezes pode parecer realidade, mas continua a ser mentira”, responde.
O vereador do Montijo vai mais longe e reivindica a autoria do programa político e ideológico que serviu de base à eleição da atual direção. Segundo Valente, foi esse documento que ajudou a eleger Nuno Gabriel há quatro anos. O agora candidato afirma sentir-se frustrado com a evolução da distrital e diz que, ao revisitar o programa que escreveu, concluiu que muitos dos objetivos defi nidos fi caram por cumprir.
Na sua perspetiva, o partido precisa de uma estrutura mais ambiciosa e mais preparada para acompanhar o crescimento político alcançado nos últimos anos. Valente considera que o distrito de Setúbal desempenha um papel estratégico no projeto nacional do Chega e na ambição de levar André Ventura à chefia do Governo.
Apoio aos eleitos locais une candidatos
Apesar das divergências, os dois candidatos convergem em algumas prioridades. Ambos defendem um reforço do apoio aos autarcas e eleitos locais do partido.
Nuno Gabriel reconhece que existem aspetos a melhorar, mas insiste que a estabilidade da estrutura “é essencial para consolidar o trabalho político no terreno”. Entre as propostas da sua candidatura está uma maior coordenação dos eleitos autárquicos e a realização de convenções plenárias destinadas a ouvir os militantes e responder às suas preocupações.
Também Nuno Valente promete uma maior proximidade aos representantes do partido no poder local, embora coloque uma ênfase particular na formação política e ideológica dos quadros. O candidato argumenta que “o crescimento acelerado do Chega levou muitos militantes a assumirem responsabilidades sem experiência política prévia, tornando necessário um acompanhamento mais próximo” por parte da distrital.
Apontando os exemplos do PS e do PCP, partidos com forte implantação autárquica, Valente defende que os eleitos do Chega precisam de mais orientação, apoio e liderança para enfrentar aquilo que descreve como um combate político cada vez mais exigente.






