Hoje quero falar-vos de um tema que, à primeira vista, poderá parecer distante da realidade do dia-a-dia da nossa cidade, mas que está profundamente ligado à forma como vivemos, convivemos e cuidamos dos espaços que são de todos. Refiro-me à Psicologia Comportamental.
Não sou psicólogo, nem tenho a pretensão de o ser. No entanto, ao longo dos anos fui tomando contacto com algumas teorias que ajudam a explicar muitos dos comportamentos que observamos diariamente. Uma delas é a chamada Teoria do Chão Sujo, intimamente relacionada com a conhecida Teoria das Janelas Quebradas.
Esta teoria parte de uma ideia simples, mas extremamente relevante, o ambiente físico influencia directamente o comportamento humano. Quando as pessoas vivem ou circulam em espaços limpos, organizados e bem cuidados, tendem a respeitá-los e a contribuir para a sua preservação. Pelo contrário, quando o cenário é de abandono, degradação e desleixo, instala-se uma sensação colectiva de que ninguém se importa e, consequentemente, aumentam os comportamentos de desrespeito pelo espaço público.
Os estudos realizados nesta área demonstram precisamente isso. Num local onde já existe lixo espalhado pelo chão, papéis abandonados, paredes vandalizadas ou zonas verdes transformadas em matagais, a probabilidade de alguém acrescentar mais lixo ou adoptar comportamentos menos cívicos aumenta significativamente. O raciocínio, ainda que muitas vezes inconsciente, é simples, se ninguém cuida, porque haverei eu de cuidar?
É aqui que termina a teoria e começa a realidade que todos os dias encontramos nas ruas de Setúbal.
Basta caminhar por diversos bairros da cidade para perceber que algo não está bem. Ruas onde a limpeza aparece cada vez com menos frequência, contentores frequentemente rodeados de resíduos, ervas e mato a crescerem em zonas urbanas, passeios degradados e espaços públicos que, em muitos casos, transmitem uma preocupante imagem de abandono.
Perante esta realidade, quero dirigir uma chamada de atenção a todos os responsáveis políticos do concelho, desde a Câmara Municipal até às Juntas de Freguesia. Sei que não faltarão justificações, explicações técnicas, relatórios, estudos ou tentativas de atribuir responsabilidades a outras entidades. Infelizmente, os cidadãos estão cansados dessa troca permanente de argumentos.
Aquilo que as pessoas vêem todos os dias não são relatórios. Aquilo que as pessoas vêem são ruas por limpar, espaços públicos degradados e uma cidade que, em demasiados locais, está longe da imagem que merece.
É evidente que a responsabilidade pela limpeza urbana não pertence apenas aos governantes. Cada cidadão tem o dever de respeitar o espaço público. Quem atira lixo para o chão, quem abandona resíduos junto aos contentores ou quem vandaliza património comum também contribui para o problema. Mas não podemos ignorar um facto essencial, o exemplo deve começar por quem governa.
Quando uma cidade é mantida limpa, cuidada e valorizada, os próprios cidadãos sentem-se mais motivados para a preservar. Quando uma cidade transmite sinais de abandono, a degradação tende a multiplicar-se. É precisamente isso que a Psicologia Comportamental nos ensina há décadas.
Por isso, a questão que se coloca é simples, que mensagem estão os nossos governantes a transmitir quando permitem que determinadas zonas da cidade permaneçam durante semanas ou meses sem a atenção necessária?
Os setubalenses não precisam de mais apresentações de projectos que ficam pelo papel. Não precisam de mais conferências de imprensa para anunciar intenções futuras. Não precisam de mais estudos para explicar aquilo que os seus olhos já vêem diariamente.
O que os cidadãos esperam é algo muito mais simples, resultados.
Esperam ver equipas de limpeza suficientes para responder às necessidades da cidade. Esperam manutenção regular dos espaços públicos. Esperam uma intervenção rápida quando surgem problemas. Esperam que os seus impostos se traduzam numa melhoria efectiva da qualidade de vida.
Setúbal é uma cidade extraordinária, com uma história rica, um património invejável e uma população que sente orgulho na sua terra. Mas esse orgulho não pode viver apenas de discursos. Tem de ser acompanhado por uma gestão urbana capaz de preservar aquilo que é de todos.
Porque uma cidade limpa não é apenas uma questão de estética. É uma questão de respeito pelos cidadãos, de qualidade de vida e até de comportamento colectivo. Ignorar este facto é ignorar uma das mais básicas lições da Psicologia Comportamental.
E quando a sujidade começa a ser vista como algo normal, o problema já não está apenas no lixo que se vê. Está na mensagem de resignação que se transmite a toda uma comunidade. É precisamente aí que começa o verdadeiro perigo.
Carlos Cardoso – gestor



