A geometria variável da indignação

Há um fenómeno curioso na política portuguesa: a ética parece obedecer às leis da física quântica. Não é absoluta. É relativa ao observador. Depende de quem governa, de quem comenta e, sobretudo, de quem beneficia.

Durante anos ouvimos que a responsabilidade política era um imperativo moral. Que bastava a sombra da dúvida para exigir explicações. Que a confiança dos cidadãos era demasiado importante para sobreviver à suspeita. Que um governante tinha de ser mais exigente consigo próprio do que a lei alguma vez poderia ser.

Depois mudou o Governo.

E, subitamente, a prudência tornou-se uma virtude. O contexto passou a importar. As explicações merecem tempo. Os factos precisam de maturação. As coincidências deixaram de ser embaraçosas para passarem a ser… coincidências.

É extraordinária esta capacidade de alguns protagonistas para mudarem de princípios sem mudar uma única palavra do discurso. Mudam apenas o destinatário.

António Costa caiu não por uma condenação, nem por uma acusação formal, mas porque considerou que o cargo de primeiroministro não podia coexistir com uma investigação criminal que colocava em causa a autoridade do Estado. A História acabaria por mostrar que o motivo imediato da sua demissão assentava num quadro muito diferente daquele que a opinião pública foi levada a acreditar.

Pode discutir-se tudo sobre os anos de governação socialista. Há decisões criticáveis, erros evidentes e responsabilidades políticas que pertencem exclusivamente ao seu Governo. Mas uma coisa dificilmente pode ser apagada: o Executivo caiu por um acontecimento cuja perceção pública acabou por se revelar muito distante da realidade conhecida posteriormente.

Entretanto, o país assiste ao acumular de episódios que envolvem o atual Governo de Luís Montenegro. Questões sobre empresas familiares, potenciais conflitos de interesses, polémicas sucessivas, comunicações erráticas, explicações que chegam sempre depois da notícia e nunca antes dela. Nenhum destes episódios, isoladamente, substitui o trabalho da Justiça. Nenhum deve ser transformado numa condenação antecipada.

Mas todos, em conjunto, justificam escrutínio político.

E é precisamente esse escrutínio que parece incomodar quem, há poucos meses, o considerava um dever cívico.

A política não pode funcionar como uma máquina de lavar conceitos. Não pode transformar ‘suspeita’ em ‘cabala’ apenas porque mudou a composição do Conselho de Ministros. Não pode converter exigência em complacência conforme a bancada onde se sentam os protagonistas.

O problema nunca foi António Costa. O problema nunca foi Luís Montenegro.

O problema é a consistência.

Porque uma democracia não vive apenas de eleições. Vive da confiança de que as regras são iguais para todos. De que os padrões éticos não oscilam ao sabor das sondagens. De que a indignação não depende da filiação partidária.

Quando a exigência se torna seletiva, deixa de ser exigência. Passa a ser instrumento político.

E quando a moral pública passa a ter dois pesos e duas medidas, não é apenas um Governo que ganha ou perde. É a própria democracia que se desgasta, lentamente, até ao ponto em que os cidadãos deixam de distinguir o que é convicção do que é mera conveniência.

Talvez seja essa a maior derrota destes últimos anos: não a queda de um Governo, nem o desgaste de outro, mas a banalização da incoerência.

Porque um país onde os princípios mudam conforme muda o inquilino de São Bento é um país onde a ética deixou de ser uma bússola para passar a ser apenas mais um instrumento de combate político.