Avante, apesar das diferenças

Não sou comunista, mas isso não me impede de reconhecer na Festa do Avante uma realidade que, ao longo de 50 anos, foi muito para além da circunstância partidária que lhe deu origem.

Há qualquer coisa de singular nesta Festa. Nascida em 1976, num país ainda a descobrir os caminhos da democracia, atravessou meio século de transformações políticas, sociais e culturais sem perder a sua identidade. Mas, ao mesmo tempo, foi ganhando uma espécie de “laicidade” política que a tornou mais ampla do que o partido que a promove.

É hoje difícil olhar para o Avante apenas como uma festa comunista. Há música, teatro, literatura, artes plásticas, gastronomia, debate, encontro e, sobretudo, uma extraordinária capacidade de juntar gerações. É também um lugar onde muitos vão pela música, outros pela convivência, outros ainda pela curiosidade e alguns, naturalmente, pela política. E todos acabam por fazer parte de uma mesma paisagem humana.

Isso não apaga a matriz ideológica da Festa. Ela está lá, assumida, visível e orgulhosamente defendida. Mas a longevidade do Avante talvez explique também essa capacidade de ultrapassar, em determinados momentos, as fronteiras partidárias. A Festa tornou-se uma espécie de território próprio dentro do território político português.

Há, por isso, uma dimensão que merece ser reconhecida: a de uma iniciativa partidária que conseguiu transformar-se num acontecimento cultural e social com vida própria. Não é necessário partilhar as ideias de quem a organiza para reconhecer o mérito de quem, durante 50 anos, soube construir e preservar esse espaço.

Num tempo em que a política parece tantas vezes incapaz de conversar com quem pensa diferente, talvez seja essa a maior lição destes 50 anos de Avante: podemos estar em desacordo sobre quase tudo e, ainda assim, reconhecer valor naquilo que o outro construiu.

É uma distinção que a democracia agradece. E que, 50 anos depois, também merece ser feita.