A Europa vive um paradoxo perigoso: o descontentamento com as democracias pode abrir caminho a regimes que acabam por retirar aos cidadãos a liberdade de se queixarem.
A turbulência política em França é mais um sinal de alerta. A crise da habitação, o custo de vida, a insegurança económica e a degradação dos serviços públicos alimentam a descrença nas instituições e abrem espaço aos discursos extremistas. Em nome do combate à imigração, da ordem e da recuperação de uma grandeza perdida, multiplicam-se promessas fáceis para problemas complexos.
É neste terreno que prosperam os que apresentam os regimes autoritários como exemplos de estabilidade e eficácia. Como se, por lá, tudo estivesse controlado. Como se a ausência de contestação significasse consenso e a obediência fosse sinónimo de prosperidade. A propaganda esconde aquilo que os europeus não podem esquecer: sem liberdade de imprensa, justiça independente e alternância política, a ordem pode ser apenas a face visível da opressão.
Mas seria um erro atribuir esta deriva apenas à manipulação dos eleitores. A democracia também tem responsabilidades. Não basta proclamar valores enquanto há famílias sem acesso à habitação, salários que não chegam ao fim do mês e serviços públicos incapazes de responder às necessidades. A democracia não pode limitar-se a garantir liberdade; tem de criar condições para que ela seja vivida com dignidade.
A saída desta encruzilhada exige respostas concretas: habitação acessível, melhores serviços públicos, salários dignos, políticas migratórias sérias e instituições mais próximas dos cidadãos. Exige, sobretudo, uma Europa capaz de demonstrar que a liberdade e a justiça social não são obstáculos à eficácia, mas condições para uma sociedade equilibrada.
O risco não está apenas na ascensão dos extremismos. Está também na incapacidade dos democratas para corrigir os erros que os alimentam. As democracias não desaparecem apenas por golpes de Estado. Podem definhar por dentro, com votos legítimos e promessas de salvação.
E quando os europeus perceberem que trocaram a liberdade pela ilusão da ordem, talvez já seja tarde para recuperar aquilo que julgavam garantido.



