Há uma nobre arte na política portuguesa que consiste em prescrever aos outros a coragem que nos faltou quando tivemos o destino do país nas mãos. Pedro Passos Coelho, subitamente saído do seu retiro de ponderação para assumir o papel de oráculo da pátria, resolveu pontificar sobre a urgência de “fazer reformas”. Numa intervenção impregnada de gravidade, o ex- primeiro-ministro alertou o atual Executivo de Luís Montenegro de que a janela de oportunidade para transformar o país se está a fechar rapidamente. É de uma generosidade pedagógica que quase nos comove.
A memória política, contudo, é um bicho traiçoeiro e teima em ter mais de dez dias. Quando ouvimos a pregação vibrante de Passos Coelho sobre o dever sagrado de reformar, torna-se impossível não ser invadido por uma sensação de déjà-vu e perguntar: onde ficou, afinal, a grande reforma da Taxa Social Única (TSU) que o próprio prometeu em 2012? Aquela fórmula milagrosa que pretendia baixar os custos das empresas à custa dos rendimentos dos trabalhadores, diziam os seus detractores, foi apresentada como o pilar da modernização económica.
E, independentemente da bondade da medida (que eu apoiava, já agora) bastou, contudo, uma vaga de protestos nas ruas, o sobressalto do patronato e a oposição unânime da sociedade para que a bravura reformista se evaporasse e a proposta fosse metida na gaveta à pressa. Fazer reformas é uma ambição magnífica, desde que ninguém proteste muito.
O mais fascinante é observar como a história se repete. Hoje, Luís Montenegro enfrenta o mesmo tipo de oposição empedernida a qualquer intenção de mudança estrutural. Mas há mais coincidências nesta comédia parlamentar. No tempo de Passos Coelho, o obstáculo para tudo parar-ou para as reformas que ficavam pelo caminho – era a implacável Troika e o braço de ferro com o Tribunal Constitucional. Hoje, Montenegro não tem a “troika”, mas sim a falta de maioria absoluta e a chantagem da oposição. O enredo é rigorosamente o mesmo: “nós queremos transformar Portugal, mas simplesmente não nos deixam”.
Para abrilhantar o circo da direita, surge agora o Chega a apresentar um programa económico que faz a Delícia das Crianças parecer um tratado de finanças públicas. Entre a abolição imediata de todas as portagens e a redução voluntarista da idade da reforma sem qualquer sustentabilidade orçamental, o catálogo de promessas do Chega faria cair os cabelos ao mais tolerante dos técnicos do FMI.
E é aqui que a ironia atinge o seu auge festivo. Como pode Pedro Passos Coelho – o apóstolo puritano da austeridade, o guardião do rigor orçamental e da disciplina cega – acenar com a necessidade de criar pontes à sua direita para governar? É mesmo com parceiros que propõem esta feira de irrealismo financeiro e demagogia fiscal que o ex-primeiro-ministro quer ver o país a “fazer reformas”?
Criticar a partir do conforto da bancada dos reformadores reformados é um exercício fácil. Mas exigir a Montenegro a audácia que se desfez ao primeiro sobressalto de rua não é liderança moral; é apenas saudosismo com fraca memória histórica.
Paulo Edson Cunha – deputado PSD



