Reportagem Semmais: Presidentes ‘salva-vidas’

Adaptação ao teletrabalho, níveis de stress nos píncaros, planear, coordenar e dirigir operações que envolvem muita gente e meios. O dia-a-dia dos presidentes de câmara mudou radicalmente e passou a estar centrado numa só missão: salvar vidas.

 

São como generais num campo de batalha com várias frentes, mas encaram a situação com o único espírito possível, o de missão. Para trás ficaram noites sem dormir e rotinas diárias viradas de pernas para o ar, mas o importante é estar presente, mesmo que à distância, dirigindo um batalhão do qual, além dos funcionários municipais, passaram a fazer parte forças de segurança, profissionais de saúde, bombeiros, IPSS e todas as entidades que, no terreno, prestam assistência às populações.

Álvaro Beijinha, presidente da câmara de Santiago do Cacém não tem dúvidas: “Estou habituado a arranjar soluções para os problemas, mas este exige 99% do meu tempo de trabalho que passaram a ser as 24 horas do dia.” E o mesmo acontece com Maria das Dores Meira, líder do município de Setúbal, “as questões relacionadas com a pandemia ocupam agora muito do meu trabalho, até porque sou a presidente da Comissão Distrital de Proteção Civil e tenho responsabilidades acrescidas”.

O discurso repete-se. Nuno Mascarenhas, presidente de Sines, refere que a atividade diária se tornou, além do mais, bastante mais intensa, por ter de dar resposta a “situações totalmente novas e diferentes”, mas não se importa de dormir menos duas ou três horas por noite desde que não tenha de lidar novamente com o stress e com a angústia de não ter equipamentos de proteção para fornecer aos que estão na linha da frente: “Foram várias noites sem dormir.”

Já Rui Garcia, edil da Moita, enfatiza a mudança de prioridades que passaram a ser “reorganizar, gerir e articular um sem fim de instituições e serviços”. E Nuno Canta, presidente da câmara do Montijo, salienta que “apesar do distanciamento social” se sente mais próximo de muita gente na tentativa de “resolver os problemas das pessoas mais vulneráveis”, opinião partilhada por Inês de Medeiros, líder da autarquia de Almada: “Uma crise desta dimensão torna ainda mais evidente a vulnerabilidade dos mais frágeis, sejam eles utentes de lares, sem-abrigo ou pessoas que de repente ficaram totalmente desprotegidas. São momentos difíceis, mas que nos obrigam a um esforço e dedicação ainda maiores.”

 


‘Generais’ e  ‘soldados’ unidos para vencer o inimigo comum

Muito importante em todas as estratégias camarárias tem sido o empenho e a solidariedade manifestados pelos trabalhadores e colaboradores. É nesse sentido que Joaquim Santos, presidente da câmara do Seixal, enaltece não só os funcionários camarários cujos serviços foram fechados (desporto, cultura) tendo-se voluntariado para dar apoio às famílias mais carenciadas, como todos os outros voluntários “dentro de um espírito de solidariedade que nos motiva a fazer mais e melhor”. O sentido de missão dos seus colaboradores é igualmente motivo de orgulho para Vítor Proença, edil do município de Alcácer do Sal: “Não foi sequer difícil convencer trabalhadores que ganham pouco mais de 600 euros por mês a continuarem a trabalhar (na recolha de resíduos sólidos, na higienização dos espaços públicos), quando os colegas estão em casa. Mas é preciso dar o exemplo e dos quatro eleitos permanentes da câmara (eu e três vereadores), ninguém foi para casa, até porque tem sido um trabalho gigantesco de articulação entre os vários agentes no terreno”.

Figueira Mendes, que lidera a autarquia de Grândola, apesar de fazer parte de um grupo de risco não deixou de ir à câmara todos os dias, mas custa-lhe não encontrar as pessoas, “reduzir drasticamente os contactos com a população é muito pesado, sinto falta desse calor humano”. Até agora, o momento que lhe fez disparar os níveis de stress foi o aparecimento do primeiro caso no concelho, “um momento muito complexo e de grandes incertezas.”

Em Alcochete, o Presidente Fernando Pinto, entende que o comandante deve ser o último a abandonar o barco e divide o tempo entre o teletrabalho e as idas ao terreno: “Tenho dois filhos pequenos e não tem sido fácil, mas é gratificante sentirmos que podemos fazer parte das soluções para este problema. E, nesse aspeto, o apoio familiar tem sido fundamental. Há vidas para salvar e isso sobrepõe-se a tudo, traz-nos responsabilidade acrescidas. Mas é reconfortante saber que quando nos falta a voz por passarmos muito tempo ao telefone, ou quando o sistema nervoso acelera, aparece um chá de limão com mel para nos devolver a resistência”.

Entre a vida familiar e a missão autárquica, Álvaro Balseiro Amaro, Presidente da câmara de Palmela, não tem mãos a medir: “O telemóvel não para, bem como os e-mails, as reuniões, o contacto com serviços internos da autarquia, com a proteção civil, com a autoridade de saúde, acompanhando as situações que se passam nos lares, mas a vida tem destas surpresas e esta está a ser uma experiência que nos fortalece. Todas as pessoas têm batalhas nas suas vidas e esta é mais uma que enfrentamos coletivamente.”