Um ciclone sem antecedentes quase varreu Sesimbra do mapa. A frota de pesca ficou destruída, assim como todas as construções junto à marginal. Oito décadas depois, há o testemunho de um homem, à época com de 14 anos, que estava na vila e que conta como foi a recuperação.
Dia 15 de fevereiro de 1941 ficará marcado para sempre na história de Sesimbra. Ainda hoje recordada como “o dia do ciclone”, a data é a de uma tremenda tempestade que fez encrespar o mar como ninguém se recordava, com as ondas a invadirem toda a frente de mar e os ventos, que se diz terem soprado a 180 quilómetros por hora, a destruir, sobretudo na freguesia do Castelo, dezenas de habitações e lojas de campanha dos pescadores, assim como mais de uma centena de barcas.
António Reis Marques, hoje com 93 anos, tinha 14 quando a tempestade se abateu. “Eu estava na rua, pouco antes do almoço, e os homens ao verem o tempo a mudar, a ficar tudo escuro, mandaram-me, e aos outros rapazes, para casa. Por essa altura já eu quase levitava, tal a força da ventania. Quando foi pela hora do almoço, aí pelas 13h00, as rajadas vieram de tal modo fortes, que as barcas que estavam na praia voaram. As que não foram arrastadas pelo mar dentro, foram atiradas para terra. Tudo destruído”.
O auge da destruição aconteceria pelas 15h00, quando a maré estava cheia. Nessa altura, à força do vento juntaram-se ondas imensas, que cavaram crateras em diversos locais. Muitos armazéns de pesca desapareceram e até o areal nas imediações do Forte de Santiago foi tragado pelo mar, deixando a descoberto a estacaria que sustém a construção edificada no século XVII. Fotos da época, agora a cargo do arquivo municipal, mostram pessoas em pé, sob a muralha.
O terror instalou-se durante algumas horas, com alguns telhados a serem arrancados, com embarcações atiradas contra as paredes, com as vagas a lamberem com ferocidade toda a baixa da vila, na altura ainda sem qualquer porto ou proteção artificial. “Lembro-me de as chapas de zinco de uma fábrica andarem no ar, a pairar. Uma coisa assustadora”, partilhou António Reis Marques que, anos mais tarde, mercê da colaboração que encetou com alguns órgãos de comunicação, haveria de compilar inúmeros textos sobre a tragédia.
Assim como chegou, o ciclone quase desapareceu. “Como era inverno anoiteceu depressa, pelo que só na manhã seguinte deu para perceber os estragos causados”, disse ainda o nonagenário. “As ruas estavam cheias de gente. Todos queriam ver a destruição. Sesimbra estava exangue e a marginal completamente destruída. O curioso é que no domingo, o dia depois do ciclone, havia um sol radioso. Não fosse a destruição e ninguém adivinharia o que se passara”, recordou ao Semmais.
Ajuda para tentar reconstruir a vila chegou de vários lados
A frota pesqueira de Sesimbra ficou arrasada. Os testemunhos da época dizem que rara foi a embarcação que não ficou destruída contra o casario e os arruamentos ou tragada pelo mar. Ao todo ter-se-ão perdido 108 barcas e, com elas, pelo menos dois pescadores. “Eram homens que estavam a tentar salvar as embarcações”, contou António Reis Marques.
“A maior parte da população eram pescadores, mas perante tamanha desgraça, toda a gente ajudou como podia. Os homens de terra, os dos ofícios e das artes, ajudaram a varar barcos, a limpar os destroços, a fazer de tudo um pouco. E depois também surgiu a ajuda do Estado”, explicou ainda a mesma testemunha.
“Foi criado o Fundo Nacional de Auxílio às Vítimas do Ciclone. Aqui em Sesimbra foi atribuído um dote às crianças que ficaram órfãs. A Junta Central das Casas dos Pescadores, então liderada pelo comandante Tenreiro, decretou uma requisição de todos os carpinteiros navais, os quais durante mais de um ano se encarregaram de reconstruir a frota pesqueira de Sesimbra. Foi o Estado quem lhes pagou todo o trabalho. Houve, de facto, uma mobilização geral e até a Colónia Portuguesa do Brasil se associou e enviou donativos”, lembrou o idoso.
António Reis Marques, guarda vivas na memória as imagens do dia 15 de fevereiro de 1941. Essas e as de todos os 93 anos que tem de vida. Não tem dúvidas quando afirma: “Nunca na minha vida vi nada assim. Não vi nada igual e desejo não voltar a ver”.
Caixa
Implorava-se para não se morrer de fome
Nos dias que se seguiram ao ciclone, não pararam de chegar à câmara de Sesimbra pedidos de auxílio e listas de bens perdidos, tendo em vista a restituição de algumas verbas. Entre o material do arquivo municipal, a que o Semmais teve acesso, contam-se listagens que incluem camisolas, calças, cuecas, combinações, etc, bens esses que pertenciam à família de Júlio Ratinho, então morador no número 8 da Rua Jorge Nunes. Outras falam de árvores e culturas destruídas, e outras ainda de bens pertencentes a várias casas comerciais, como seja a de uma barbearia de onde se perderam tesouras, navalhas de barba, toalhas, um maço de alfinetes e, até, um mealheiro com 66 escudos. O documento que mais impressiona é, no entanto, o que é endereçado a 24 de fevereiro por um moleiro ao presidente da autarquia: “Somos nós cinco pessoas de família, e tendo perdido por efeitos do ciclone que devastou o país, o único ganha-pão que possuíamos, que era um moinho cujos prejuízos foram orçados pelo mestre de obras em três contos e quinhentos escudos, e vendo-nos condenados, por absoluta falta de meios, a morrer de fome, não podendo fazer as reparações do referido moinho, vimos junto de Vª Excª implorar providências necessárias para esta nossa situação”.






