Histórias da revolução e de revolucionários

O Semmais apresenta três histórias que fazem parte da História do 25 de Abril. Três personagens que lutaram pelo derrube do regime fascista. Factos desconhecidos para a maioria e que ajudam a compreender como era Portugal antes da revolução.

 

“Rapaz Beato, é logo à noite”

Carlos Beato era alferes miliciano à data da revolução. Era camarada de armas do capitão Salgueiro Maia, na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém. Tomou parte ativa no 25 de Abril de 1974, comandando o pelotão que foi para o Largo do Carmo, cercando o Convento já então comando da GNR onde se acoitara Marcelo Caetano, e que chegou a fazer disparos de aviso quando os sitiados teimavam em não se render.

“Em outubro de 1973, depois de três anos em Moçambique, preparava-me para regressar à vida civil. Quando estava a fazer o ‘desquite’ (expressão militar utilizada para o ato de entrega dos bens), o soldado que me estava a atender disse que o capitão Salgueiro Maia queria falar comigo. Foi assim que, no dia seguinte voltei ao quartel. Falei com Salgueiro Maia na parada chaimite. Foi ali que ele me disse: “Rapaz Beato, já viste a situação a que chegámos. Preciso de uma dezena de oficiais milicianos”.

Carlos Beato, que mais tarde viria a ser presidente da câmara de Grândola, revelou ao Semmais que aceitou de imediato continuar a servir. “A Salgueiro Maia, que viveu para servir e não para ser servido, não podia dizer não”, acrescentou.

Os tempos que se seguiram foram de reuniões diversas. Carlos Beato conta que Salgueiro Maia se rodeava daqueles que lhes inspiravam confiança e que com eles cantava as canções proibidas de Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Zé Mário Branco, padre Francisco Fanhais. Até que chegou o momento. “Na parada chaimite, mais uma vez, chamou-me e disse ‘Rapaz Beato, é logo à noite’. A partir desse momento só tive de mentalizar o 6º pelotão, que comandava, e levá-los para a operação FimRegime. Valeu a pena”.

 

Coxos, moucos e tolos contra blindados

Em 1974 havia em Setúbal um quartel de serviços auxiliares. A guarnição desse quartel, cerca de 300 homens, era constituída por um grande número de deficientes: Uns coxos, outros surdos, outros com atrasos mentais. A política de guerra do Estado Novo impedia que os mesmos fossem dispensados de cumprir o serviço militar, sendo então utilizados em tarefas de limpeza e outras menos bélicas. Foram estes soldados que o comandante daquele local, homem defensor do regime, quis utilizar para travar uma coluna de blindados proveniente de Estremoz e com destino a Lisboa, onde se iria juntar com as forças revolucionárias.

O alferes Ricardo Botas era, no dia 25 de Abril de 1974, o oficial de dia no quartel. “Quando cheguei ao quartel reparei que havia uma grande azáfama. Até o comandante, que por norma só aparecia à tarde, já lá estava”, contou ao Semmais.

“Com o acesso às transmissões militares, tínhamos consciência do que se estava a passar. Sabíamos, os oficiais milicianos, que estava em marcha um golpe de Estado, até porque já a 16 de março tinha havido uma tentativa. Foi então que fomos surpreendidos pelo nosso comandante, o coronel Carvalho Fernandes, que sabendo que vinha uma coluna de blindados de Regimento de Cavalaria de Estremoz, para se juntar às forças revolucionárias, em Lisboa, teve a ideia de nos mandar sustê-la no cruzamento de Pegões”, explicou.

O então alferes Botas conta que “houve uma oposição surda”. Ou seja: os milicianos foram protelando o cumprimento da ordem e, ao fim de algum tempo, lá veio a informação de que já não necessitavam de ir pelejar, porque os blindados já estavam a entrar em Lisboa. “Evitou-se assim que duas companhias de aleijados, maluquinhos e outros doentes – no meu pelotão tinha um mouco que, quando fazíamos ordem unida, tinha de ser avisado do que se estava a passar pelos colegas do lado e havia sempre três ou quatro, de muletas, que tentavam marchar – fossem com dois lança morteiros, um com o cano torto e outro sem percutor, tentar parar uma coluna de blindados”.

 

Ordem para explodir a ponte de Alcácer

Aos 90 anos Vítor Zacarias Piedade Sousa ainda mantém vivas as memórias do dia 31 de dezembro de 1961, quando um grupo de militares e civis tentaram depor o regime, assaltando o quartel do Regimento de Infantaria nº 3, em Beja. Na sequência deste golpe falhado, o então operário da secção de metalurgia da CUF, no Barreiro, haveria de ser preso cerca de quatro meses mais tarde. Passou dois anos e meio nas cadeias do Aljube e de Caxias, onde sofreu diversas torturas, mas não se arrepende de ter participado naquele que considera ser um “importante antecedente do 25 de Abril de 1974”.

“A minha função, juntamente com mais nove pessoas, era fazer explodir a ponte de Alcácer do Sal, para impedir a perseguição aos nossos caso tal acontecesse”, explicou ao Semmais o antigo operário. A destruição da ponte não foi necessária, com o golpe de Beja a falhar por ação de um oficial daquele quartel, que de arma em punho conseguiu fazer abortar o ataque de cerca de duas dezenas de militares e civis que, com a ajuda de alguns oficiais, até já tinham prendido nas camaratas os soldados aquartelados.

Vitor Zacarias havia de ser preso em abril, no Barreiro, pela Pide, juntamente com o seu colega Francisco Lobo, que mais tarde seria presidente da Câmara Municipal de Setúbal em dois mandados. “Fui espancado, sujeito à tortura do sono e da estátua… Uma coisa tenebrosa”.

A revolução de 1974? “Só quem passou pelas cadeias do fascismo pode dar valor”.