25 de Abril. Conta-me o que foi?

O dia de viragem para Portugal traz muitas memórias a gerações mais antigas. Os jovens de hoje ainda não eram nascidos, mas contaram-lhes como aconteceu e o significado que tem para o país.

Há 47 anos ainda não eram nascidos. O 25 de Abril de 1974 para os três jovens que estiveram à conversa com o Semmais não foi uma experiência, mas uma memória contada. A verdade é que cresceram numa liberdade que sempre foi realidade, desconhecendo o que foi viver o fascismo, num país reinado pela proibição, e onde a liberdade foi um direito renegado às gerações mais antigas.

Na casa de Inês Cardoso, no Seixal, a data “é um marco da história que jamais poderá ser esquecido”, também por outra razão: os avós paternos ficaram presos na Guerra do Ultramar, em Angola, e só conseguiram regressar a Portugal no processo de descolonização que se deu graças à Revolução. Apesar de não ter vivido na pele o dia 25 de Abril de 1974, a estudante de pós-graduação em jornalismo no ISCTE, de 22 anos, está consciente de que o Golpe de Estado “permitiu-nos conquistar direitos que até então não tínhamos, como a liberdade de expressão, a implementação de um amplo sistema de proteção social, ou o surgimento de um serviço nacional de saúde e de um sistema de educação que, embora não seja perfeito, proporciona mais oportunidades”.

Ainda assim, a jovem acredita que nos dias atuais o 25 de Abril “é uma vitória que nos passa ao lado. Basta-nos olhar para o caso de eleições em que a abstenção hoje em dia é gigante e isso causa-me algum transtorno, porque foi um direito que nos foi tão difícil de conquistar”.

Para Eduardo Soares, de 18 anos, a Revolução dos Cravos não “teve um significado tão nocivo”, como teve para os avós do estudante setubalense de medicina que presenciaram o 25 de Abril. A perspetiva que tem deve-a à avó paterna que lhe ensinara as dificuldades sentidas na altura. Por ser mulher os direitos eram lhe negados, como o de voto. “Lembro-me da minha avó dizer que as mulheres só podiam votar se tivessem concluído o ensino secundário antes do 25 de Abril”, partilha Eduardo. Apesar de só ter nascido três décadas depois, dá valor à liberdade que hoje tem e diz não se conseguir imaginar a viver no regime ditatorial.

“A liberdade permite-me circular livremente e sem apontar nenhum dedo a alguém. Na época, as pessoas eram mais oprimidas, havia a censura e as mulheres eram muito limitadas na forma como tinham de agir e como eram olhadas socialmente. Não tinham a liberdade que têm hoje, mesmo a nível de direitos”.

 

Factos da História relatados nas escolas ou por familiares 

Nascidos na democracia amadurecida, os jovens perspetivam o 25 de Abril de 1974 de formas diferentes e aprenderam o significado desta data simbólica para o país na escola ou com as histórias contadas por familiares.

“Desde pequeno que aprendi o significado na escola, mas foi com os meus familiares que aprendi verdadeiramente o representou o 25 de Abril para o país”, começa por dizer Carlos Januário, de 21 anos, nascido e criado em Setúbal. “É o símbolo da liberdade e da expressão livre e de tudo o que não seja censura”, partilha o estudante de literatura da Universidade Nova de Lisboa. Para este jovem, o valor da liberdade reside na oportunidade de “andar na rua e puder falar livremente sem ser censurado”, ainda que nesta fase pandémica que o país atravessa, “tenhamos sido, de certa forma, privados da liberdade”.

Apesar do Golpe de Estado de 1974 que juntou populares e militares do Movimento das Forças Armadas (MFA) nas ruas das cidades portuguesas, a proclamar pela reposição da democracia no país, Carlos Januário admite que a sua geração não atribui tanto valor à simbologia que 25 de Abril representa para o país em comparação com a geração mais antiga. “Tenho amigos que acreditam que antes de 1974 o país estava incrível e que os atos de António Salazar deviam ser perdoados. Acho que falta um pouco de sensibilidade para a minha geração sobre a importância desta data para o povo português”.