Onde estavam os atuais autarcas? Uns na escola, outros a trabalhar, um na guerra…

Onde estavam alguns dos atuais autarcas do distrito no dia 25 de Abril de 1974? Que memórias guardam desse dia e quais as que destacam? O Semmais traz à estampa depoimentos que ajudam a compreender mais um pouco da diversa realidade histórica.

Em casa, ainda por nascer, a caminho do trabalho, na escola ou na guerra. A recordação do local onde cada qual se encontrava no dia 25 de Abril de 1974 varia consoante as idades. Vítor Proença, atual presidente da Câmara Municipal de Alcácer do Sal, estava em Cabinda, o enclave no Norte de Angola, entre o Zaire e o Congo, enquanto que Álvaro Amaro, autarca de Palmela, então com 13 anos, frequentava o primeiro ano do liceu, onde se encontrava quando tomou conhecimento da revolução. Já Nuno Mascarenhas, presidente da câmara de Sines, tinha sete anos e recorda que se encontrava em casa, na companhia dos pais e irmão.

Inês Medeiros, edil de Almada e então de muito tenra idade, conta que não estava em Portugal, enquanto Joaquim Santos, do Seixal, ainda nem sequer era nascido. Nuno Canta, presidente da câmara do Montijo, diz que estava na Atalaia, com a avó, enquanto Rui Garcia, autarca da Moita, tinha 11 anos na época e recorda o facto de ter ido à escola, mas não ter tido aulas. Já Maria das Dores Meira, autarca que preside à câmara de Setúbal, refere que “estava a caminho do trabalho”. Para o trabalho seguia também António Figueira Mendes, presidente da autarquia de Grândola, quando tomou conhecimento do golpe de Estado em curso.

 

Momentos de grande euforia vividos em diferentes situações

Se Inês Medeiros recorda, desse dia, a imensa euforia do pai, que preparou a família para virem celebrar o 1º de Maio a Portugal, o militar Vítor Proença recorda “a brutalidade da guerra colonial” e a consequente “alegria imensa que invadiu todos os militares perante a perspetiva de regressarem a casa”.

Para Álvaro Amaro ficaram as recordações do avistamento da primeira chaimite, junto à GNR de Palmela, para onde a população convergiu na esperança de saber algo mais sobre a situação, mas também as conversas dos ferroviários na barbearia de seu pai, no Pinhal Novo, assim como a alegria dos populares que saíram à rua.

A Nuno Mascarenhas não mais saíram da memória as palavras de uma vizinha: “Até agora não houve derramamento de sangue”. Rui Garcia tem a lembrança do acompanhamento da situação através da rádio, enquanto Nuno Canta salienta a alegria da “pequenada” por não ter aulas nesse dia. “Surpresa alegria e enorme expetativa”, foram os sentimentos que se apoderaram do atual presidente da câmara de Grândola, enquanto que para Maria das Dores Meira ficaram gravados “o burburinho em Cacilhas” e a expectativa popular de tentar adivinhar o que então se estava a passar na outra margem do Tejo.

 

Alegria e esperança num dia marcado pelas memórias

Para a autarca setubalense persiste, como principal mensagem da época, “a esperança de ter um país melhor para todos”. Para Rui Garcia “a memória mais impressiva tem a ver com a comemoração do primeiro 1º de Maio e da alegria das pessoas”.

Essa mesma alegria é também salientada por Nuno Canta e Figueira Mendes. Enquanto o primeiro, frisa o facto de, a partir desse momento, também as mulheres poderem ter uma participação mais ativa na vida do país, o segundo não esquece a “alegria do povo nas ruas” de Grândola. Do rol de memórias acumuladas na data, o autarca de Alcácer do Sal, Vítor Proença salienta a “imensa alegria dos pais” e também a força do povo e a sua capacidade de se arregimentar. Para Inês de Medeiros fica a memória da descoberta do país, com a presença em manifestações, encontros, concertos. “Respirava-se uma nova alegria e um entusiasmo redobrado… havia muito por fazer, mas força para concretizar e coragem para sonhar um mundo novo”, salienta Álvaro Amaro.

“Cresci a ouvir familiares e amigos a falar do tenebroso período da ditadura fascista e da alegria de um povo com a revolução de Abril, da construção democrática de um país que tinha parado no tempo, mas recordo bem a alegria e entusiasmo com que sempre comemorámos o dia da Liberdade”, salienta por sua vez Joaquim Santos. Já o presidente da câmara de Sines não esquece a ocupação de uma casa próxima daquela onde residia e de homens a empurrarem outro chamando-lhe “fascista”, palavras cujo significado só anos mais tarde compreendeu.