Biólogos tentam salvar borrelhos nas Salinas do Samouco

A zona das salinas está coberta de estruturas metálicas que tentam proteger os ninhos. Para além dos predadores há também o perigo de destruição das dunas e, uma vez mais, o receio pelos danos causados por um eventual futuro aeroporto.

O borrelho-de-coleira-interrompida é uma ave que nidifica, entre outros locais do país, nas Salinas do Samouco, Montijo. Mesmo não estando, para já, ameaçada a continuidade da espécie, há receios de que o declínio, a exemplo do que já sucede noutras regiões da Europa, possa concretizar-se. Para evitar a redução drástica do número de exemplares uma equipa de biólogos encontra-se, desde 2005, a estudar medidas de proteção. Há especiais preocupações com os predadores, mas também com os efeitos negativos que a construção do aeroporto complementar, apontado para a Base Aérea do Montijo, possam acarretar.

Raposas, gralhas, pegas, gaivotas, cães, gatos, ratazanas e cobras são alguns dos predadores naturais dos borrelhos. São eles que dizimam os ninhos e cuja atividade está, por isso, a tentar ser controlada e minimizada através da colocação de estruturas metálicas que protegem os ovos. “A medida aplica-se em muitos outros países da Europa. Pode não ser totalmente eficaz contra as ratazanas-castanhas e as cobras rateiras, mas mostra-se eficiente na defesa contra muitos outros predadores”, explicou ao Semmais o biólogo Afonso Rocha, investigador auxiliar da Universidade de Aveiro.

Com este sistema de proteção dos ninhos, a equipa que trabalha nas Salinas do Samouco tem conseguido, ao longo dos últimos anos, evitar o declínio da espécie. “Subsistem grandes preocupações sobretudo nas praias, que são outras das zonas de nidificação. Aí, com as constantes operações de limpeza nas dunas, muitos ninhos acabam destruídos e, apesar dos borrelhos serem aves capazes de fazerem mais posturas após o falhanço da primeira, a ameaça é real”, disse o biólogo.

Afonso Rocha refere que em países como a Noruega ou a Suécia, a ação dos predadores já conduziu ao desaparecimento das aves reprodutoras. Exemplares vindos da costa atlântica, sobretudo de França e Alemanha, escolhem Portugal e a região das salinas para passarem o inverno. “Mas há também, conforme já pudemos concluir, uma percentagem de 15 a 30 por cento das aves que se tornaram residentes na zona. Outras, por sua vez, deslocam-se ao longo da zona das dunas, para Sul e para Norte, em extensões que podem ir até aos 100 quilómetros”, adiantou o investigador, salientando que, em território nacional, é na ilha de Porto Santo que a espécie se encontra mais ameaçada.

Outros bandos passam ainda por Portugal para viajarem, durante o inverno, até ao Senegal ou Guiné Bissau.

Para além das proteções metálicas colocadas sobre os ninhos, os borrelhos parecem estar a contar também com a colaboração de duas outras espécies de aves: os pernilongos e as chilretas. Estas aves, explica Afonso Rocha, são bem mais agressivas na defesa dos seus ninhos e enfrentam os predadores quando estes tentam comer-lhe os ovos. Tal facto é aproveitado pelos borrelhos, que cada vez mais fazem a postura junto daquelas espécies.

 

Caixa

Ameaçados pelo aeroporto

A construção do aeroporto complementar de Lisboa no local onde atualmente funciona a Base Aérea número 6, a apenas três quilómetros das salinas do Samouco, é vista com grande preocupação por parte dos biólogos que atuam na área. “Existe um real perigo de colisão das aves com os aviões e, além disso, os canais de aterragem e descolagem que serão utilizadas vão interferir as rotas de migração de inúmeras espécies”, afirma Afonso Rocha. O biólogo diz que estas salinas são um local de nidificação e também de passagem para dezenas de espécies de aves provenientes de países como a Gronelândia ou a Rússia, e que no inverno fazem migrações para África, chegando mesmo a atingir a África do Sul. “Com o perigo de colisão das aves com os aviões haverá a tendência para se secarem as salinas, não apenas as do Samouco, mas também as de Sarilhos. Perdem-se assim as áreas de nidificação e aumentam-se os riscos de desaparecimento das espécies”, diz.