Última olaria de Setúbal luta contra o plástico e pela sobrevivência

A Olaria Nova, no centro de Setúbal, é a última empresa do ramo ainda a laborar na cidade. Três irmãos mantém a porta aberta e a tradição viva, mas não sabem até quando.

No centro de Setúbal ainda se desenrola, diariamente, um estranho combate: o barro contra o plástico. Esta é a história da Olaria Nova, a única que resta na cidade, onde três irmãos ainda trabalham na roda, fabricando e tentando negociar os utensílios que, há cerca de 20 ou 30 anos eram imprescindíveis em qualquer lar ou atividade, mas que as poucos têm vindo a definhar.

“A olaria, tal como todas as artes tradicionais, como a cestaria, por exemplo, está a desaparecer. No caso das louças de barro este desaparecimento tem a ver com as alterações dos hábitos das pessoas e com o surgimento dos objetos de plástico”, diz ao Semmais Joaquim Mateus, um dos três irmãos que mantém o negócio a funcionar.

Até à crise de 2010/11, a loja da família Mateus ainda prosperava. Havia mesmo um projeto de expansão, construindo-se uma olaria especialmente vocacionada para a fabricação de covos ou alcatruzes, tão úteis para a captura de polvos. “Vendíamos para Vila Real de Santo António, Setúbal, Sesimbra, Cascais, Caxinas, Póvoa de Varzim e até para o Sul de Espanha. Depois veio a crise e tudo mudou. Mas já antes, com o surgimento em força do plástico, o negócio tinha sido seriamente afetado”, explicou o artesão. “Os pescadores espanhóis, que antes utilizavam os covos de plástico, substituíram-nos pelo barro, mas quando o Governo português aumentou o custo do gás, os preços que tínhamos de praticar já não eram apetecíveis para eles, que mantiveram sempre as mesmas tabelas. Acabámos por perder esse mercado e, também, boa parte do mercado nacional, que, entretanto, se voltou para o plástico”, acrescentou.

Hoje a Olaria Nova, situada na Rua António José Baptista, subsiste com as encomendas de alguns restaurantes. Até 2020 havia um bom lote de potenciais compradores em resultado da realização de feiras de artesanato, de caça e eventos medievais. “Com a pandemia tudo se alterou e, agora, as encomendas são muito mais raras. Uma coisa muito tímida”, disse ainda o oleiro.

 

Empresário lamenta que ninguém queira seguir a arte

O futuro da olaria em Setúbal parece definitivamente comprometido. Joaquim Mateus diz que, quando aos 12 anos começou a ajudar o pai na roda, havia quatro estabelecimentos na cidade. Agora, refere, nem sequer há interesse em que os jovens optem por uma atividade que não garante a subsistência.

“Eu e os meus irmãos aprendemos com o meu pai, tal como um rapaz vizinho que, nos tempos em que o negócio rendia, nos ajudava. Agora, dos meus filhos e sobrinhos, apenas um mostrou interesse em aprender. Mas apenas em aprender, não em viver desta arte, porque isto não dá para fazer vida”, acrescenta o empresário.

Joaquim Mateus, lembrando como funcionava o estabelecimento criado em 1960, diz que o barro utilizado no fabrico das diversas peças – pratos, tachos, canecas e perfumadores, peças que serviam para espalhar cheiros que abafassem os odores deixados pelo peixe grelhado – provinha de dois barreiros junto aos limites da cidade.

“Ao princípio, com o consentimento dos donos dos terrenos, íamos de carroça, de pá, picareta e enxada. Mais tarde o meu pai comprou uma camioneta. Depois o Estado começou a impor regras e a fazer cobranças, para evitar danos ambientais resultantes da exploração. Agora, quem retira barro tem primeiro de pagar uma caução ao Ministério do Ambiente. Nós, na Olaria Nova, passámos a comprar barro a uma empresa de Alcanede, próximo de Fátima”, diz Joaquim Mateus.

O oleiro, que não sabe por quanto mais tempo irá o aguentar o negócio, refere que o barro continua a ter muito mais vantagens que o plástico, mas lembra que a tradição já não existe. “Dantes, a maior parte das mulheres estavam em casa e utilizavam o barro, que é inimigo do stress. Agora quase não há donas de casa. É tudo à pressa. As pessoas sabem que o barro é muito mais saudável que o plástico, mas também sabem que o tabaco mata e, mesmo assim, continuam a fumar”.