Tiago Sigorelho levanta o véu sobre o maior encontro nacional de jovens criadores

Edição, promovida pelo Gerador, foi transformada num festival de três dias, entre 1 e 3 de dezembro, no Fórum Municipal Romeu Correia e no Centro Cultural e Juvenil de Santo Amaro. Ao Semmais, o presidente da plaforma desvenda as novidades da Mostra que se realiza em Almada. 

Como é que nasceu a Mostra Nacional de Jovens Criadores?

No final do século passado, as entidades ligadas à dimensão artística e setor cultural, acharam que fazia sentido encontrar um modelo para promover trabalhos que a juventude estava a desenvolver. Estamos a falar de um período em que houve crescimento económico e maior acesso ao ensino superior. Pensou-se que seria interessante começar a promover os jovens talentos e arrancou este projeto pelo Instituto Português da Juventude. A partir daí, a MNJC, com as suas alterações e adaptações ao longo do tempo, foi sempre sendo sempre pensada para ter o acesso mais democrático possível, facilitar que qualquer tipo de pessoa, sem nenhum tipo de restrição, pudesse contribuir e participar. É a iniciativa mais relevante de destaque de trabalho dos jovens criadores em Portugal.

Consegue destacar momentos na história da Mostra que considera estruturantes?

Penso que o arranque foi determinante. Além disso, tivemos momentos económicos difíceis, em que este projeto continuou firme. Para os jovens criadores foi muito importante perceberem que existe algo que está sempre presente e que não é abalado por ventos económicos mais desfavoráveis, como a pandemia. Até ao momento, a MNJC soube estar ao nível para os criadores se puderem expressar e, hoje, acho que essa é uma das maiores vantagens, ter credibilidade, noção de solidez e segurança.

Falando agora da edição desde ano. Como é que foi preparada, tendo em conta que atinge o marco especial do 25o aniversário?

Para nós era muito importante encontrar aqui um modelo que pudesse refletir a importância destes 25 anos. O que tentamos fazer, também nas conversas que fomos tendo com o IPDJ, foi sempre encontrar estas formas diferentes, cada vez mais orientadas para o próprio público, que são os jovens. Este ano transformámos a Mostra num grande festival relacionado com as diversas dimensões artísticas, com três dias, com muitas atividades que acontecem, basicamente, desde as 14h00 até à 00h00. Ainda existem uma série de dimensões novas, como a gala de entrega de prémios onde só nessa altura é que se vai revelar quem é que são os vencedores de cada categoria, já que cada um tem associado um conjunto de distinções. Depois temos ainda um concerto incrível no final do último dia, logo a seguir à gala, com o Filipe Sambado. Isto foram tudo dimensões que trouxemos e que são merecedoras desta celebração.

A Mostra recebeu o maior número de candidaturas de sempre. Estavam à espera?

Admito que fomos surpreendidos. Havia, naturalmente, alguma expetativa em resultado do trabalho que o Gerador desenvolve junto dos jovens, nas vertentes cultural e educação. Por vários constrangimentos, só foi possível lançar a MNJC em agosto e o final do período de candidaturas era muito curto, até setembro. Tendo em conta os prazos para construir as propostas, sabendo da exigência desse processo, fomos realmente surpreendidos pelo volume de candidatos, que chegou às 838. Aproveito para destacar a qualidade incrível dos 114 trabalhos, se não estou em erro, que o júri selecionou. Pensar que existem mais de 100 criadores jovens em Portugal a fazer este trabalho extraordinário deixa-nos muito felizes.

A edição tem novas categorias. Quais são e porque foram integradas?

São cinco novas categorias. Arte digital, arte urbana, cerâmica, gastronomia e humor. Para nós a cultura não é só a clássica, as expressões culturais habituais, mas também a popular e as novas dimensões. A arte digital é claramente uma dimensão que está sempre a reinventar-se. A urbana também é algo que chegou há muito pouco tempo, de uma forma estruturada, mas que contagiou o país. Hoje, Portugal é uma referência na arte urbana, por isso faz todo o sentido termo esta dimensão. A cerâmica é muito interessante, não só por- que tem um histórico brutal que vai muito além da história portuguesa, mas continua a ser tratada de modo, cada vez mais, contemporâneo, com soluções diferentes e inovadoras e por isso achamos fundamental estar presente. O humor, cada vez mais pessoas se expressam através do espetáculo de stand-up, ou de outro tipo de textos ou interpretações. A gastronomia, fundamental na cultura nacional e latina, achámos que estava na hora de dar-lhe a nobreza de fazer parte da Mostra com o mesmo peso de qualquer outra categoria.

E porque a escolha de Almada como palco desta edição?

Almada tem algumas condições que achamos que são estruturalmente relevantes para poder receber um projeto desta natureza. Primeiro, tem o interesse fundamental da ligação com a arte e com a cultura. Também tem feito muito trabalho, ao longo dos últimos anos, em tentar a valorizar outras dimensões artísticas. Para além disso, temos conhecimento e sabemos da estratégia que exis- te em valorizar estes aspetos relacionados com a juventude, muito estruturados nesse pensamento. Existe uma parte muito significativa da população almadense que é jovem e que tem os seus desafios e as suas dinâmicas e, por isso, estes fatores pareceram-nos basilares para fazer esta parceria com a autarquia.