Mostra sobre capa de discos de José Afonso patente na Biblioteca de Grândola

“Olhares ao Andarilho”, com a curadoria de José Teófilo Duarte, faz parte das celebrações do município para assinalar os 61 anos do poema que lançou uma das senhas na Revolução de Abril.

“Olhares ao Andarilho”, assim se chama a exposição sobre as capas dos discos de José Afonso, que está patente até ao dia 26 na Biblioteca Municipal de Grândola. A mostra integra o projeto “Ilustrar a Fraternidade” e tem a curadoria de José Teófilo Duarte.

Aberta ao público desde o último dia 9, conta com as peças concebidas por Alberto Lopes, João de Azevedo, José Brandão e José Santa-Bárbara, em grande formato, e procura assinalar o legado de José Afonso, mas também o impacto do mesmo para a indústria discográfica nacional. “Está é a segunda de três iniciativas do projeto. Já tivemos em exposição em Setúbal e agora estamos em Grândola com a mostra redesenhada. Não estão lá as capas todas, mas estão treze álbuns que ele concebeu do princípio ao fim e contratou designers para as fazer. O José Afonso era muito exigente e rigoroso e, por isso, exigia gravar em estúdios bons, como em Londres. Tive oportunidade de conviver com ele e nesta questão da estética da música ele comentava ‘isto está empastelado, o som sai empastelado’. Era muito insistente a esse nível e por isso é que se tornou num génio”, afirma José Teófilo Duarte em conversa com o nosso jornal.

Para o curador, as capas destes discos marcam também uma mudança de paradigma na conceção dos álbuns de música em Portugal; “Esse nível de design e estético das capas foi também uma inovação que o José Afonso acabou por introduzir. Os discos, na maior parte dos casos, tinham a fotografia do artista, ou de um sítio qualquer, pois a preocupação era mostrar o artista. O José Afonso quis acabar com isso para que as capas apontassem para reflexões e pensamentos a partir das suas obras, mas sempre dando liberdade aos artistas. Ele dizia que o disco era dele, mas a capa era do artista contratado para fazer o desenho. O José foi de facto pioneiro, precursor nesse estilo estético, sonoro, em que se acabou com aquele choradinho manhoso que havia e, também, na representação de figuras e mensagens. E com ele vieram artistas como o Fausto, o Sérgio Godinho e outros”.

A promoção desta exposição integra uma programação ainda mais alargada promovida pela câmara municipal, ao longo deste maio, intitulada de “Grândola, Vila Morena – 61 Anos do Poema” que evoca a memória e obra do artista celebrizado pelo 25 de Abril. “Foi no dia 17 de maio de 1964 que o José Afonso veio pela primeira vez a Grândola para cantar num concerto organizado pela Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense. Foi um espetáculo marcante, para assinalar os 52 anos da Fraternidade Operária. O José Afonso ficou impressionado com a coletividade e com o espírito que ali se vivia e, em maio, escreve uma carta com o poema que dedicou a Grândola. Por isso decidimos dedicar esta celebração neste mês tão especial”, explica Carina Batista, vereadora com o pelouro da Cultura.

“O Zeca está em cada esquina e temos tentado, de facto, preservar esta memória e esta história e dá-la a conhecer aos mais jovens, em especial aqueles que não viveram o 25 de Abril”, acrescenta a autarca.

Além da exposição, até ao final da iniciativa, está marcada para sábado uma oficina dedicada à exposição patente na Biblioteca Municipal, com a artista visual Ana Nogueira e ainda a apresentação do livro, da autoria de Alexandra Lucas Coelho, “Gaza Está em Toda a Parte”, no dia 31.

A programação já promoveu um espetáculo dos B Fachada, no Cineteatro Grandolense, no passado dia 16, sala que também recebeu a exibição do documentário “Onde Está o Zeca?”, do realizador Tiago Pereira, no dia 21.