As vindimas estão à porta e a Península de Setúbal, seguindo uma tradição que dura há cerca de 15 anos, prepara-se para fazer cerca de 52 milhões de litros de vinho. Uma quantidade que, de acordo com o presidente da Comissão Regional Vitivinícola, Henrique Soares, poderá ser inferior em cerca de cinco por cento relativamente a 2023. Menos quantidade não signifi ca, contudo, menos qualidade. Essa, diz ao Semmais, deverá ser muito boa.
Quais as perspectivas para a vindima que se aproxima?
Será uma vindima que não deve diferir muito das dos últimos anos. Talvez haja uma redução na ordem dos cinco por cento. Quanto à qualidade, apesar de ainda ser cedo para se ter alguma certeza, tudo indica que será muito boa, seja nos brancos seja nos tintos. Se não se verifi car nada de muito anormal, estimamos que na Península de Setúbal sejam produzidos este ano entre os 50 e os 52 milhões de litros de vinho.
Como é que a região está a lidar com a questão dos excedentes?
A região não teve, na verdade, muitos problemas com os excedentes de produção, ao contrário do que se verifi ca noutras zonas do país. Não havia, ao que sei, excedentes em stock há cerca de dois anos. No entanto, os excedentes são um problema que deixa todos os produtores atentos. As destilações de crise (transformação de vinho em álcool com características medicinais) tem resolvido parcialmente alguns casos no país. É um facto que um conjunto de circunstâncias diversas têm originado uma diminuição do consumo e alteração nas quantidades vendidas.
Muitos produtores nacionais queixamse que o caso dos excedentes pode também ser uma consequência da importação de grandes quantidades de vinho, sobretudo de Espanha…
A importação não é uma novidade. Não aconteceu só agora ou nos últimos anos. O país, no seu todo, nunca produziu o sufi ciente para o consumo interno e para exportar. Temos de compreender que a atual conjetura negativa, resultante da pandemia, das guerras e do aumento dos meios de produção, dura há, pelo menos, dois anos. Apesar de tudo o que se diz, o que constato é que as importações de vinho têm vindo a diminuir. Ninguém pode ignorar que as contrações do mercado, os ciclos económicos, afetam sempre a produção. Para todas as situações é necessário dar um período de ajustamento e penso que é isso que os produtores da Península estão a conseguir fazer. Estão a adaptar-se à realidade do mercado.
O que mais poderá fazer o Governo para minorar os problemas dos produtores?
Não há medidas mágicas. Talvez o Governo deva aumentar a sua ambição e levar até Bruxelas os pedidos de muitos produtores, que reclamam, por exemplo mais destilação de crise. É evidente que é necessário retirar mais vinho do mercado, porque se existirem excedentes também a produção irá diminuir. Ninguém está interessado em perder dinheiro. Ninguém vai importar vinho por desporto.
Os indicadores dizem que há menos consumidores. Será que os preços vão descer?
Na minha opinião é quase impossível que o preço do vinho diminua. Nos últimos três anos, devido aos confl itos e aos acentuados aumentos dos custos de produção, os produtores viram-se obrigados a aumentar os preços. Em minha opinião esses aumentos nem sequer acompanharam as despesas de quem produz. Tudo aumentou exponencialmente, desde a eletricidade e aos combustíveis, até ao vidro e ao papel.
Esta crise que já dura há três anos não poderá ter refl exos negativos na empregabilidade no distrito?
Tenho constatado a preocupação dos produtores em darem trabalho a quem, por tradição, tira proveitos desta atividade. No entanto, a redução dos lucros é um facto. O que me parece é que devemos concentrar-nos na progressão do valor médio das vendas. A tendência dos últimos 15 anos foi a do aumento das exportações. No entanto. os confl itos que envolvem países como a Rússia, a Ucrânia e Israel deixam marca no distrito. Neste momento tudo parece empurrar em sentido contrário. Estes três países estavam a aumentar as compras de vinho da nossa região e, mesmo sendo compradores de uma quantidade abaixo dos 10 por cento da totalidade, já tinham uma posição de relevo, até porque estavam a aumentar as aquisições.
Dos 52 milhões de litros que este ano deverão ser produzidos no distrito, que quantidade irá ser exportada?
Como já referi as exportações da Península de Setúbal aceleraram há cerca de 15 anos. O turismo cresceu e isso refl etiu- -se nas vendas para o estrangeiro. Este ano creio que o valor do vinho vendido para o exterior poderá render aos nossos produtores cerca de 30 milhões de euros. Na verdade esta será uma quantia dentro da média. Os negócios, ano após ano, oscilam entre os 25 e os 35 milhões.






