Mascarenhas-Martins assinala uma década de atividade artística

Foto: Luana Santos

Fundada por Levi Martins e Maria Mascarenhas a estrutura profissional tem dinamizado a programação cultural do concelho e da Casa da Música Jorge Peixinho. Ao Semmais é feito o balanço do trabalho de uma década e desvendados os desafios.

Ao longo desta década, que relação conseguiram estabelecer com o público?

Houve, ao longo dos anos, um conjunto de pessoas que começou a acompanhar o nosso trabalho e que se fidelizou, mesmo sendo um trabalho pontual. Claro que a possibilidade de estarmos regularmente num espaço alargou imenso o público. Ou seja, para além das pessoas que já nos acompanhavam, houve outras que começaram a aderir à nossa programação e que às vezes espreitam os nossos trabalhos autorais. Mas, se calhar, há quem venha ver espetáculos e não nos conhecem. E está tudo bem, pois também fazem parte do nosso público potencial. O que sempre nos preocupou foi tentar que as relações fossem sérias e pensadas a longo prazo. Talvez isso não tenha levado a sucessos estrondosos do ponto de vista imediato, mas a verdade é que sinto que as pessoas que estão mesmo connosco estão de verdade.

Parece-me que um dos maiores legados da companhia é a relação institucional e associativa que tem aqui no Montijo. Concorda?

Conseguiu-se uma conjugação de fatores bastante exemplar, como com a câmara do Montijo, a União das Freguesias do Montijo e Afonsoeiro e as demais juntas. Isto demonstra que se conseguiu chegar a uma configuração que não é muito habitual e que alimenta a possibilidade de se fazer. Acho isso essencial, tal como a relação com outras entidades, como o Ateneu Popular do Montijo, ou a Sociedade Filarmónica de 1º de Dezembro. Por vezes só se fala do que foi feito e não das condições que o permitiram, que é um aspeto bastante importante, feito de forma invisível ao longo de muitos anos, com reuniões, insistência, diálogos e alguns conflitos e dificuldades, que normalmente ficam omissas na história.

Que impacto teve na companhia o aparecimento da Casa da Música Jorge Peixinho?

A possibilidade de termos agora um espaço fortaleceu as relações com o público. Fez com que as pessoas estejam mais presentes e queiram acompanhar mais o nosso trabalho. Mas esse é um grande desafio em Portugal para uma estrutura de artes performativas, não só aqui, mas em todo o lado. A relação das pessoas com a cultura é muito frágil e as estatísticas demonstram isso. Portanto, o que metemos na cabeça, com a nossa teimosia e o nosso lado irrequieto, foi que íamos tentar fazer alguma coisa em relação a esse assunto. E acho que temos conseguido fazer algumas coisas.

Foto: Luana Santos

Dez anos passados, como olham para a oferta cultural no Montijo e de que forma têm contribuído para promover o setor?

Verifico que nestes últimos dez anos houve, de facto, uma aposta muito clara em haver mais cultura, mais diversidade por parte da câmara e não só. Espero que tenhamos contribuído para isso. Sei que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para que houvesse mais e melhor e mais coisas a acontecer. Portanto, vejo de forma muito positiva estes dez anos no que diz respeito ao panorama cultural no Montijo, sendo que acho que podemos ir muito mais longe. Isto é o início, acho que se conseguiram plantar sementes que podem vir a dar frutos muito interessantes no futuro. A existência de uma estrutura profissional ajuda a algumas decisões e a alavancar outras coisas. Noutras cidades isso aconteceu. A existência de uma estrutura profissional, na minha opinião, catapultou a política cultural para ter mais coisas a acontecer e mais diversidade.

Sentem que estão a colher já frutos deste trabalho?

Um dos frutos evidentes da nossa persistência, também na relação com as entidades públicas, foi o facto de ter surgido o convite para programarmos a Casa da Música Jorge Peixinho. Relaciono dois aspetos: o facto de termos trabalhado tantos anos nisto e de termos tido tantas reuniões com o anterior presidente da câmara, Nuno Canta, mas também com os sucessivos vereadores, alguns chefes de divisão, que levou a que houvesse uma confiança na estrutura e que a estrutura pudesse ser dotada de instrumentos, como um espaço, que permite ir mais longe.

Que objetivos têm a curto médio prazo?

Estamos a trabalhar e a investir muito na ação pedagógica, que diz respeito a atividades pensadas para os mais novos, para as escolas ou com componentes formativas. As crianças estão completamente disponíveis para ter relação com as artes, porque uma parte da aprendizagem dá- -se na prática artística e elementar, dado que começam muito espontaneamente a dançar, a cantar, a inventar canções e a desenhar. Essa é uma aposta consciente e deliberada e que passa, também, por tentar que comecemos a trabalhar novos públicos.